HINO. CANTO. LOUVOR

As Escrituras nos acompanham. Nelas, nós encontramos a Palavra de Deus que é a luz de nossos passos (Sl 119,105). Está presente na nossa existência cristã, na teologia, na catequese, na liturgia, nos sacramentos e nas orações:  Pai nosso, Ave Maria, Credo, sinal da cruz, etc.

As Escrituras dão sentido e conteúdo ao nosso cântico litúrgico. Quando os compositores se baseiam no contato orante com a Bíblia, as músicas e as letras estão ungidas pela presença do Espírito, à semelhança da melodia que leva e eleva quem toca ou canta com modulação, tonalidade e respiração. Tudo é oração no Espírito, no respiro do som, do ritmo e das pausas.

Nossa música litúrgica reproduz em suas letras o conteúdo bíblico de poemas, cânticos, hinos e, sobretudo, dos salmos que, por sua própria natureza, nos convidam a recitar ou a cantar. A arte musical incentiva a decisão do salmista e daquele que crê: “Vou cantar para sempre o amor de Deus, minha boca anunciará tua verdade de geração em geração” (Sl 89(88),2); “Cantai-lhe um cântico novo, tocai com arte na hora da ovação” (Sl 33(32),3).

Cantamos com Maria Santíssima, com Zacarias, com os anjos do Natal e com Simeão quando musicamos ou recitamos os hinos com os quais o evangelista Lucas impregnou o mistério do nascimento e da infância de Jesus. Deu-lhes narrativa festiva de sublime musicalidade.

Há ainda os hinos que Paulo apresenta, ricos de compreensão da profundidade e da altura do mistério de Cristo Jesus, e suas exortações, tais como: “entoem em vossos corações salmos, hinos e cânticos espirituais” (Cl 3,16). Quer dizer: a música pode ser interior e interiorizada.

São belos os cânticos do Apocalipse que celebram a vitória do Ressuscitado e dos eleitos: “A salvação pertence ao nosso Deus que está sentado no trono, e ao Cordeiro! ” (7,12); “A realeza do mundo passou agora para nosso Senhor e seu Cristo e ele reinará pelos séculos dos séculos” (11,15). Por se tratar dos cânticos de uma Igreja perseguida e atormentada, o modo de louvar, desde a liturgia celeste, é a esperança viva no Vivente. Eis sua beleza que enternece.

Com tantas referências bíblicas, podemos afirmar que a música e o canto fazem parte da vida cristã. Na Divina Liturgia, não são simples adornos. São constitutivos.  Canta-se o cântico novo do Cordeiro com Ele e para Ele, em referência ao sacrifício. Canta-se o Amém e o Aleluia que são o próprio Jesus em nós e conosco, na sua ação de graças de louvor, em meio à tribulação. 

Em setembro, refletimos sobre o Livro do Deuteronômio, Livro da Lei. Ele nos ensina a cantar a Deus quando afirma: “Ele é teu canto de louvor, Ele é teu Deus, que fez por ti grandes coisas e terríveis coisas que viste com teus olhos” (10,21). Em afirmação forte da memória histórica e cultual da libertação, os israelitas só tinham motivo para encontrar no Deus da lei e da aliança seus cantares, seja na alegria, seja na tristeza. Iguala-se ao canto de Moisés a Deus, sua força e seu canto, que precipitou o cavalo e o cavaleiro no mar (Ex 15, 1- 2). Hino dos libertados!

 Já perto da conclusão, o Deuteronômio pronuncia o Cântico em honra do Rochedo de Israel (32, 1-47), posto nos lábios de Moisés qual poema, à semelhança de um salmo. Harmoniza temas sapienciais e históricos que dão motivos para cantar: “Foi num deserto que o Senhor achou o seu povo, num lugar de solidão desoladora; cercou-o de cuidados e de carinho e o guardou com a pupila de seus olhos” (v. 10). Entende-se por que Deus é seu cântico.

Muitos motivos bíblicos ressoam no Dia Nacional da Bíblia. Quisera que o contato mais íntimo e assíduo com as Escrituras favorecesse a música litúrgica. Permitisse a vivência do ano litúrgico, permeado por cânticos específicos que com arte expressam o louvor da Igreja.

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