DE RÉU A JUIZ

Celebramos a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. Entre nós, é a conclusão do Ano do Laicato. O senhorio de Cristo, intimamente ligado à vocação e à missão dos fiéis leigos, não se confunde com a atividade dos condutores da política do mundo, que governam as nações e as submetem. O senhorio de Jesus é paradoxal e desconcertante, pois se manifesta durante a Paixão e Morte: o Rei coroado de espinhos e crucificado. Portanto, seu senhorio é de outra ordem.

Ao entregarem Jesus nas mãos de Pilatos, representante do poder romano de ocupação, as lideranças judaicas, especialmente os membros do Sinédrio, ampliaram o significado do processo judicial de Jesus. Passou a ter uma ampla dimensão, oficial e pública, que extrapolava o pequeno espaço do território judaico. Deu-lhe dimensão universal como Jesus merecia.

No contexto das forças políticas e influentes do tribunal humano estabelecido, é fundamental a afirmativa de Jesus: “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). Ele faz a declaração diante do governador, a autoridade representativa do império romano que o interrogava como um juiz. O contraste é enorme. De um lado, o poder do mundo, forte, simulador, hipócrita e até chantagista; de outro, o poder de Jesus, aparentemente fraco, mas rico de altivez, pleno de verdade e de luz.

O crime presumido esconde-se no falseamento das acusações: “Se não fosse um malfeitor, não o teríamos entregue” (v. 30).  A pretensão do crime se expõe na pergunta da autoridade: “Tu és o rei dos judeus? ” (v. 33). Ao proclamar “Meu reino não é deste mundo”, Jesus afirma tranquilamente seu senhorio sem ameaçar o império romano. Não quer tomar seu lugar.

No primeiro plano da narrativa, os judeus, representantes do Sinédrio, são os acusadores, pois não aceitam a pretensão régio-messiânica de Jesus e querem vê-lo morto. O juiz é Pilatos, cuja autoridade depende do imperador romano. Juiz subalterno e medroso de perder o cargo diante da ameaça: “Se o libertas, não és amigo de César. Quem se proclama rei opõe-se a César” (v. 12).

No segundo plano e bem superior, eles não são o que são. Ao contrário, Jesus é “Aquele que é”, o Acusador e o Juiz, simultaneamente. Assim sendo, os poderosos do mundo –acusadores- é que são por Jesus interrogados. Ao conduzir o interrogatório, Ele desvenda-lhes as verdadeiras intenções. Interroga até o juiz: “Falas assim por ti mesmo ou outros te disseram de mim? ” (v. 34). Consegue pôr na boca do governador o reconhecimento de sua realeza: “Tu o dizes: Eu sou rei” (v. 37).  

Quanto ao silêncio de Jesus, é também seu modo de conduzir o julgamento, de sorte que Pilatos precisou dizer: “ Não me respondes? Não sabes que tenho poder de libertar-te e poder de crucificar-te? ” (v. 10). Quando Jesus decide responder, é para expressar seu juízo definitivo: “quem me entregou a ti tem mais culpa” (v. 11). Neste instante, o réu torna-se juiz.

Jesus não é simplesmente conduzido por forças cegas e hostis. Ele é senhor de si e da situação. Sabe o que diz e faz. É livre. Age em consonância com o Pai no Espírito. Comanda a cena.

Seguir a Cristo é reinar com Ele, pelo serviço à verdade, à justiça, ao amor, na entrega livre de si.  Por isso, a festa de Cristo Rei é o dia próprio do leigo (a). Não haveria data litúrgica mais apropriada. Ficou evidenciado, neste Ano do Laicato (2017- 2018), que o reinado de Jesus Cristo, estabelece-se pelas ações e o testemunho coerente dos cristãos, sal e luz.

O laicato é chamado a trabalhar para a promoção da dignidade da pessoa humana e a animar à luz do Evangelho as realidades temporais e espaciais. A vasta inserção laical nos ambientes sociais exprime-se pela vivência da Regra de Ouro à qual Jesus dá uma forma positiva: “Tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7, 12). É a máxima do Rei.

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