CONSOLAÇÃO: LIBERTAÇÃO

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Na segunda semana do Advento, do Dêutero-Isaías extraímos a intenção confortadora de Deus: “Consolai o meu povo, consolai-o” (Is 40,1). A consolação de Israel advém da boa notícia da salvação, a libertação da escravidão babilônica. Assemelha-se a um decreto: “sua servidão acabou” (v. 2).

O grito de libertação dá legitimidade à consolação. Não é mero lenitivo. Trata-se da ação eficaz operada por Deus. Deus quando diz, faz. Tudo, porém, é anunciado com beleza poética e sugestiva, pois, é o próprio Senhor quem desce para conduzir seu povo pelo deserto, através da estrada de um novo itinerário. Abre os caminhos.

Todavia, o retorno há de ser coletivamente construído: “Preparai o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas” (3-4); “O Senhor vem com poder, seu braço tudo domina; eis, com ele, sua conquista, eis a sua frente a vitória” (10). É processo inacabado no sentido que haverá outros percalços históricos a serem superados com o braço divino.

Enfim, o povo disperso será congregado. O anúncio ressoa também no espaço geográfico, no lugar demarcado com referência ao monte Sião, para Jerusalém e às cidades de Judá (v. 9).

Tanto a descrição da partida quanto a da chegada é bela e terna.  Retoma a experiência do pastoreio ou do governo divino, apesar de perigos e riscos, com cuidados: “Como um pastor, ele apascenta o rebanho, reúne, com a força dos braços, os cordeiros e carrega-os ao colo; ele mesmo tange as ovelhas mães” (v. 11).  Tal marcação refere-se à garantia do futuro, a restauração social, política, religiosa do povo. Se houver mães haverá continuidade.

Embora com tantas diferenças, Marcos relê ou tem presente o texto acima, atualizando-o com criatividade, na narrativa do “Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1). Ao invés da chegada do povo, o centro do anúncio profético refere-se a Jesus que vem como salvador. Jesus é a Mensagem de Salvação. É a boa nova ou boa notícia. Em síntese, o Evangelho é Jesus.

O mensageiro João Batista é a voz que grita no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas” (v. 3). Trata-se, pois, de um profeta-precursor. É apenas e tão-somente um mensageiro ou um locutor comprometido. Assim se define: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (v. 7-8).

Participar do rito batismal de João significava a disposição pessoal de preparar-se para a vinda do Senhor pela mudança ou conversão da vida pecaminosa. João é figura expressiva de comunicação direta. Ele é arauto. É veículo. Por isso, precisava causar impacto pela extravagância: “se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (v. 6). Fazia sucesso “midiático”, pois, embora pregasse no deserto “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro” (v. 5). Era reconhecido como homem de Deus ou profeta, visto que as pessoas aderiam a sua pregação e “confessavam os seus pecados e ele os batizava no rio Jordão” (v. 5). Portanto, pelo rito e pela palavra era um sinal religioso e sensível de coerência.

 Meditemos no silêncio e na profundeza da alma o anúncio feito por João: “virá Alguém mais forte”. Com determinação, aplainemos nossas veredas e mudemos os itinerários tortuosos para irmos ao seu encontro.

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