BEM-AVENTURANÇAS

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Ao invés de Sermão da Montanha, São Lucas põe o discurso de Jesus na planície, após ter descido do monte (6,17). O lugar plano, objetivado pela narrativa, coincide com o largo espaço onde Jesus se encontra com a massa do povo e dela se aproxima. Com seu gesto, conduz os discípulos a descerem à planície. A população era carente naquele tempo, tanto quanto hoje. Jesus quer lhes anunciar um evangelho de salvação, isto é, a promessa que nele se realiza.

Jesus olha para os discípulos. Fala com os olhos, não só com palavras. Diz-lhes: Felizes vós pobres, famintos; vós que chorais, sois odiados e expulsos, insultados e amaldiçoados. Anuncia-lhes boa notícia: vosso é o Reino, grande será vossa recompensa. (v. 20-23). Ao contrário, infelizes são os ricos, os que estão fartos, os que riem, os que são elogiados. Estes já foram consolados. (24-26). Ai de vós!

Do ponto de vista literário, observa-se a clara inversão de valores e a desconcertante escolha paradoxal: o pobre e não o rico, o faminto e não o satisfeito, quem chora e não quem ri. Nada parece convincente nesta boa notícia de felicidade. Onde fica a prosperidade da vida boa?

No entanto, Jesus não prega a miséria, o sofrimento e a passividade diante dos infortúnios da vida. Uma boa e atenta leitura alcança o cerne da mensagem que é bem outra. O Mestre anuncia à salvação e a garantia da felicidade como dom e missão. O pobre é aquele discípulo que já possui o Reino. Para os demais discípulos com várias carências, anuncia-lhes no presente o futuro promissor: “será grande a recompensa”.

Portanto, não se trata de pobre e de rico, no sentido sociológico e financeiro. Entretanto, o evangelista tem diante de si a Igreja do seu tempo, constituída de pobres e de oprimidos, de perseguidos, sofredores e mártires, todos discípulos para os quais Jesus olha agora. No contexto antigo de incertezas, Lucas insere as palavras de Jesus. Os novos discípulos perderam todas as seguranças ao seguirem Jesus. No entanto, hão de se sentirem felizes ou abençoados porque seguem o caminho do Mestre Jesus e dos profetas.

Quanto aos quatro “ai de vós”, são as infelicidades ou maldições de viver longe da proposta da generosidade cristã. Apontam para o destino oposto dos que disseram não à mensagem do Reino, proposta por Jesus. São aqueles que não creem no Evangelho e o rejeitam como nefasto e indigno do homem. Pior, perseguem o cristianismo e desprezam os discípulos até a morte. Entretanto, elogiam os falsos profetas e são elogiados por eles. Deste modo, tornam-se gozadores sem perceberem a própria tristeza, o imenso vazio da própria indigência.

As bem-aventuranças não estão separadas da pessoa de Jesus Cristo, caso contrário são incompreensíveis e inaceitáveis.  Ele as viveu integralmente. Pobre, possuía o Reino, sua riqueza.  Solidário com os famintos e os tristes, foi recompensado na Páscoa. Odiado, expulso, insultado, amaldiçoado teve, além da sorte dos profetas, a herança do Justo (Cf. 23, 47). Em Cristo, o discípulo também exulta, “pois será grande a recompensa no céu” (v. 23).

Apesar da dificuldade e do desafio do tempo presente, não podemos deixar de proclamar e testemunhar o paradoxo das bem-aventuranças, como faz e vive nosso Papa Francisco. Na cultura do consumismo, na qual o dinheiro é sinônimo de prosperidade e esta é garantia de felicidade e de bênção, só o homem e a mulher que encarnem as bem-aventuranças serão motivo de contradição. Sadia contradição. Santa contradição.

Papa Francisco deseja uma Igreja-pobre. Trata-se da Igreja que vive as Bem-aventuranças, longe da área do conforto e do sofá, seguindo o caminho que conduz à planície onde estão os invisíveis da sociedade consumista. O mundo contemporâneo não é feito para eles. Queira a graça do Senhor tirar-nos da zona de conforto e da acomodação!    

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