FRATERNIDADE E AMIZADE SOCIAL

Quem ler a Carta Encíclica Fratelli Tutti de Papa Francisco, provavelmente, sentirá um feliz sentimento de gratidão. Ele nos brinda com elementos inspiradores para a fraternidade universal e para a amizade social. Estávamos precisando. Necessita o mundo. Necessita a Igreja. Necessita o Brasil de hoje. Necessita o católico comum, às vezes, perdido ou desorientado sobre a opção preferencial pelos pobres e a luta pela justiça.

 Em meio a tantos problemas e dificuldades que o mundo e os povos atravessam e que o Pontífice descreve, ele próprio abre espaço para o otimismo, fundado na esperança e na confiança. O Papa acredita na fraternidade e na amizade social. Sabe que são possíveis. Não desanima diante do empecilho das polarizações.

Nosso Papa buscou e encontrou na Idade Média, muitas vezes, confundida com a idade das trevas, uma luz esplendorosa que brilha e pode ainda brilhar mais: São Francisco de Assis, o pobrezinho, homem das alegrias e das chagas. Personagem de grande ternura a estimular o Papa jesuíta que adotou seu nome: “Este Santo do amor fraterno, da simplicidade e da alegria, que me inspirou a escrever a encíclica Laudato sì , volta a inspirar-me para dedicar esta nova encíclica à fraternidade e à amizade social. Com efeito, São Francisco, que se sentia irmão do sol, do mar e do vento, sentia-se ainda mais unido aos que eram da sua própria carne. Semeou paz por toda a parte e andou junto dos pobres, abandonados, doentes, descartados, dos últimos”. 

De modo renovado e com tons da poética de inclusão, o Papa aborda temas para ele recorrentes e também frequentes no drama e na tragédia humana. Primeiramente, os “sonhos desfeitos em pedaços”, pois reacendem os conflitos que pareciam superados, os nacionalismos fechados, a perda do sentido social. Constata até com certa amargura: “Os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único”. Além disso, há as pandemias e outros flagelos da história, em clara alusão ao Covid 19 e ao problema das imigrações devido à guerra, à fome, à falta de oportunidades nos países de origem e a rejeição nos de chegada.

A esperança é creditada pelo Papa, apesar dos pesares. Ele procura dar voz a tantos percursos da esperança, pois “Deus continua a espalhar sementes de bem na humanidade”. Repete um discurso feito aos jovens, em 2015: “A esperança é ousada, sabe olhar para além das comodidades pessoais, das pequenas seguranças que reduzem o horizonte, para se abrir aos grandes ideais que tornam a vida mais bela e digna”. A jovialidade do pensamento do Papa, expressa-se, então, no convite: “Caminhemos na esperança!”

Papa Francisco traz à reflexão e à prática a mensagem da parábola do bom samaritano. Vai ao seu núcleo provocador: “Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos tomar para reconstruir este mundo que nos está a peito. Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano. Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do mundo”.

Assemelha-se o Papa àquele bom samaritano que se aproxima e, portanto, se faz próximo da humanidade debilitada. Parece ser a única voz, muitas vezes, incômoda. Ele próprio deseja que a Igreja fizesse o mesmo trajeto e os de outras religiões e os sem religião… pois todos somos irmãos e precisamos ser fraternos. 

Retorna à relevância do amor  que “coloca-nos em tensão para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença”

Enfim, a Encíclica potencializa o empenho de Francisco em criar pontes e derrubar os muros, construindo a cultura do encontro, a nova civilização. Tudo é posto na ótica de um grande e belo sonho. Outros dirão utopia, porém, no sentido negativo de não lugar. Nós, ao contrário, no horizonte fecundo da esperança. Percurso a ser feito.

Fonte de Imagem: https://media.gazetadopovo.com.br/2020/10/03155657/francisco-assina-fratelli-tutti-assis-660×372.jpg

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