Entrevista com Pe. Queiroga, por Osmar Filho

PELOS CAMINHOS DA HISTÓRIA

DIOCESE DE IGUATU

MEMORIAL

Reproduz-se, aqui, no site da diocese, parte de uma entrevista, realizada, em agosto de 2010, com o Pe. Afonso Queiroga, então vigário geral de Iguatu, e, na ocasião, também pároco de Catarina; idem em relação às irmãs Tereza bandeira (In Memoriam) e Gilza Menezes.

Osmar Filho: Nós nos encontramos aqui, na paróquia de Catarina, cujo padroeiro é são José; e o vigário é o padre Afonso Queiroga da Silva. Também conosco, as religiosas Gilza menezes e Teresinha Rodrigues Bandeira e eu, Osmar Filho, como articulador desta conversa, à guisa de registro – mais um! – da caminhada da diocese de Iguatu. Isso é para fazer face a um pedido de Dom João costa, O.Carm., nosso atual bispo diocesano. Pedido também de Dom José Mauro: que a gente vá, na medida do possível, resgatando os momentos mais fortes da caminhada da nossa Diocese – Diocese que vai marchando rumo ao seu jubileu Auréo – jubileu de ouro.

Irmã Gilza, Pe. Queiroga e Irmã Tereza, eles bem que estão, assim, afinados… bem que estão em sintonia com esta caminhada, porque já estavam, ali, presentes, interagindo, nas origens, no começo da crônica da igreja particular de Iguatu.

Osmar Filho: 1961… 1962…  A diocese estava aparecendo no mapa da geografia eclesiástica do Ceará, aqui no nosso regional. 61 um ano muito significativo, porque ali, às vésperas do Concílio Ecumênico Vaticano II.  Então, a 1ª pergunta… eu acho que é por aqui: no ano de 1961, onde vocês estavam? E como tomaram conhecimento do nascimento da Diocese? 

Pe. Queiroga: Eu cursava o 2º ano de teologia no seminário da prainha. E lá a gente teve a notícia, que interessava muito; exatamente porque a gente era dessa área que ia constituir a nova Dioecese.  Era da Arquidiocese de Fortaleza, que era Mombaça. E íamos passar agora a pertencer a uma nova diocese. Inicialmente, houve até uma discussão muito grande, porque eu já era Clérigo.. Eu, Dom Doth, Agostinho… e, então, nasceu a pergunta, a questão, porque, como clérigos, já éramos incardinados na arquidiocese de fortaleza.  A dúvida: fica em fortaleza ou na nova diocese.? Então, os canonistas responderam: tudo que está dentro dessa área passa a ser da nova diocese…

Osmar Filho: E a Irmã Gilza… (risos) encontrava-se onde?

Ir. Gilza: (risos). Em 61, eu ainda estava na casa de meus pais, lá na cidade de Cratéus, aqui no Estado, terminando meu ensino médio. Só depois que eu fui para a Congregação das Filhas de Santa Tereza.

Osmar Filho:  Ir. Tereza?

Ir. Tereza: Eu estava “na família”.. tinha terminado o Normal (Pedagógico).  E estava auxiliando uma irmã, que tinha uma escola particular..

Pe. Queiroga:  … Em Campos Sales, era?

Ir. Tereza: Em Campos Sales, na diocese do Crato. Em 61, eu estava lá. (pausa). Não tinha maiores entrosamentos com o pessoal da Diocese de Iguatu.. apesar de ser iguatuense, não é? Eu nasci em Iguatu e, com poucos meses de idade, fui para Fortaleza. E de Fortaleza viemos, por motivo da nomeação do meu irmão padre, para Campos Sales.. aí minha família também se deslocou para lá.

Osmar Filho: Muito bem! Então… em 62, Dom Mauro é empossado; e, em 64, Pe. Queiroga, o senhor é ordenado. Estou certo? 12 de dezembro de 64. Foi Ordenado por Dom Mauro? Como foi o dia de sua ordenação?

Pe. Queiroga: Minha ordenação foi em Mombaça. Dom Mauro foi para Mombaça; e ali, na praça, ao lado da Matriz, aconteceu…

Osmar Filho: … a grande cerimônia…

Ir. Tereza: .. Dia de nossa senhora de Guadalupe…

Pe. Queiroga: … Sim, sim. Aliás, a minha vida é muito ligada à Nossa senhora:  nasci no dia 7 de outubro (Nossa Senhora do Rosário); fiz 1ª Comunhão no dia 24 de setembro (que, em Mombaça, se celebrava a festa de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro); e me ordenei no dia 12 de dezembro (Nossa Senhora de Guadalupe) … de modo que sou um filho…

Osmar Filho: que tem uma ligação muito íntima… filial, mesmo, com Maria!

Pe. Queiroga: E a 1ª missa celebrei no dia 13, de manhã, também em Mombaça.

Osmar Filho: Irmã Gilza e Ir.  Tereza já nos deram aqui uma informação de que faziam parte das Filhas de Santa Tereza. Emitiram os votos. Mas agora vamos para o começo propriamente dito do trabalho de vocês na Diocese. Estas primeiras informações foram de cunho muito pessoal. Mas é bom para que o internauta (risos gerais)… possa compreender,  afinal de contas, quem  são os três que estão falando, de onde vieram… (risos)… Então, vamos para o começo, propriamente dito, da ação de vocês nas  atividades pastorais da Diocese.

Dirigindo-se ao Pe. Queiroga: oficialmente, esse limiar, vai começar, em relação a sua pessoa, em 1964, com sua ordenação, sim?

Pe. Queiroga: É.. eu me ordenei em dezembro de 64, e, no começo de 65, fui para a paróquia de Milhã, suceder ao Pe. Elmas, que mudava para a catedral de Iguatu. E eu fiquei na Paróquia de Milhã, dois anos: 65 e 66.

Osmar Filho: Em 66 é que vai acontecer a 1ª Assembleia Diocesana… procede? A famosa assembleia de avaliação e de planejamento… como a gente a conhece até hoje.

Ir. Tereza: É… no fim do ano..

Pe. Queiroga:  Isso.  Assessorada pelo Dom Falcão.

Osmar Filho: Dom Falcão?

Ir. Tereza: Que era bispo de…

Pe. Queiroga: .. Limoeiro do Norte. No colégio São José, se deu a 1ª Assembléia… Em 65 também nascia digamos… a semente… das Comunidades Eclesiais de Base.. com a criação do Dia do Senhor. Naquele ano, quando Dom Mauro voltou da última sessão conciliar; ele convocou uma reunião, e os padres de cada paróquia trouxeram alguém que julgaram capaz de começar, no meio rural, o Dia do Senhor

Osmar Filho: Em nível de Diocese, este trabalho de articulação das CEBS, da celebração do Dia do Senhor, ficou a cargo de quem? 

Pe. Queiroga: …  Em nível de Diocese era o Pe. Elmas, e Leonardo, um missionário da Sagrada Família.

Osmar Filho: Ir Gilza.. e a senhora, por tal tempo, 1965/66, já se encontrava inserida na Diocese ou ainda não?

Ir. Gilza: Não. Como Filha de Santa Tereza, em 1967, em vim residir na cidade de Iguatu, no colégio S. José. Fazia parte da coordenação da Congregação. Eu vim diretamente com outras irmãs para trabalhar na educação, no colégio. Uma das características principais da Congregação era, naquele tempo, a educação. Nos primeiros anos, 67 e 68, a gente ficou muito mais no colégio, como professora. Em seguida, começamos os movimentos estudantis, com as atividades em vários colégios; começamos, ali, com o Pe. Queiroga e outros professores, o trabalho com a juventude, ate mais ou menos 1975.  E daí eu fui trabalhar já na Pastoral, na paróquia de Mineirolândia. Aí a gente começou, diretamente, com as CEBs.

Pe. Queiroga: Nessa época aí começava também a Pastoral da Juventude. Mesmo Grupo de Jovens.

Osmar Filho: – Era a JUC?

Pe. Queiroga: Não. Nós tínhamos três grupos de jovens. Eu acompanhava um, que mantinha uma certa ligação com a Ação Católica; e Gilza acompanhava outro grupo de jovens mais ligado ao colégio. E havia outro grupo na Paróquia do Prado. Mas nós caminhávamos muito articulados: os três grupos.

Osmar Filho:  É o começo, então, da História da Pastoral de Juventude na Diocese.  Isso se dá em que ano mesmo?

Pe. Queiroga:  Em 1968.

Osmar Filho: Nos tempos do Governo Militar. Censura, Ditadura… Como foi que vocês enfrentaram essa realidade? Houve alguma perseguição, ameaças?

Pe. Queiroga: É… Houve ameaças. A gente tinha que andar com um certo cuidado. As reuniões, os nossos encontros com os jovens aconteciam no Colégio São José.

Osmar Filho: O espaço era o Colégio São José. Mas havia, por certo, alguém ali, observando, não?

Pe. Queiroga – Exato. Tanto que, uma vez, eu fui chamado pelo Prefeito, e ele me disse que eu tivesse cuidado, porque eles estavam de olho, porque tinham conversado com o prefeito para saber o que que existia. E, como a gente participava de encontros da Ação Católica da JOC, –  congressos, em Recife, em São Paulo – o nome da gente aparecia.

Ir. Gilza – Muitos documentos, que a gente recebia na hora do quente, a gente andou enterrando alguns…

Osmar Filho: E o movimento das CEBs, quando há o deslanche? As primeiras CEBs, surgiram, historicamente, quando? No final da década de 1960?

Pe. Queiroga: O 1º passo foi a criação dos chamados Centros Sociais. Antes do Dia do Senhor, em algumas paróquias, nascia o chamado Centro Social. Era uma “semente” da Comunidade. O embrião. A partir daí, nasciam alguns trabalhos comunitários. Aproveitando umas ajudas que vinham da Aliança direto para o Clero, que vinham direto pras paróquias. E, alguns padres mais iluminados, em vez de saírem distribuindo os recursos, de maneira assistencialista, recebiam aquilo e colocava em determinado lugar, que ele escolhia como uma semente de uma experiência comunitária; a partir dali, criavam-se alguns trabalhos comunitários. Por exemplo, lá em Milhã, surgiu muito isso com o Pe. Elmas. Com o Agenor, em Solonópole. Com o Salmito, em Senador Pompeu. Depois, quando D. Mauro convocou essa reunião para a fundação do Dia do Senhor, eu já estava em Milhã, e levei exatamente as pessoas dos Centros Sociais, que já tinham um pouco de experiência de trabalho comunitário.  Aí, o 2º passo, o Dia do Senhor. O 3º passo, com os cursos de Promoção Humana, que serviam para qualificar ou capacitar melhor os dirigentes do Dia do Senhor.

Osmar Filho: De fato, quando a gente folheia as primeiras edições do Boletim da Diocese (o Boletim começou a circular em maio de 1970) percebe-se que, até o final daquela década, há muitas notícias de ocorrência desses cursos.

Pe. Queiroga: Seria bom a gente comentar o conteúdo desses cursos, não? Gilza, diga aí os conteúdos.

Ir. Gilza: Os conteúdos eram o estudo da Bíblia (a Diocese estava na época pós-Conciliar, e aí a gente tinha acesso ao estudo bíblico de forma mais profunda). Primeiros socorros (Saúde Preventiva). Sindicalismo, um dos conteúdos fortes, pois muitos cursistas eram agricultores.  Cooperativismo. A Dignidade da Pessoa Humana. Noções de Liderança.

Osmar Filho: Havia aí uma preocupação com o Homem na sua integridade: corpo e alma. A Fé com a Vida.

Ir. Tereza: E havia aí um reforço para a Comunidade, porque, durante os cursos, que geralmente duravam três dias, à noite, nós nos reuníamos com as categorias: adultos, jovens e crianças. O povo da região vinha todo. No final, ao encerramento do curso, a Eucaristia. Os padres celebravam com o povo daquela região. Dom Mauro se fazia presente em algumas oportunidades

Pe. Queiroga: Então, qual foi o “passo”, do Dia do Senhor, para a Comunidade Eclesial de Base? Esse trabalho aí da formação das lideranças, do conhecimento dos DIREITOS E da DIGNIDADE DA PESSOA.

Osmar Filho: E as Visitas Pastorais? Claro que a gente sabe que este – o da Visita Pastoral – é um ofício, naturalmente, do Bispo, inerente ao múnus episcopal. E que vem de há muito tempo, pois foi instituída no Concílio de Trento, no século XVI. E, certamente vocês integraram, até por mais de uma vez, o séquito de Dom Mauro, quando ele saía em peregrinação pela Diocese. A pergunta, enfim, é esta:  Como era o “estilo” dessas Visitas empreendidas pelo 1º bispo de Iguatu? Uma outra: Qual a experiência que os vocês guardam desse convívio?

Pe. Queiroga: A história das Visitas Pastorais tem 2 momentos, dois jeitos de fazer: primeiro, quando começou, Dom Mauro fazia a Visita Pastoral, e, um dos pontos do programa da Visita, era Crismar. E aí, então, já sobrava pouco tempo para outras coisas. Além de Crismar, ele procurava fazer encontro com as lideranças, sejam lideranças sociais, e lideranças da Igreja. Mas o tempo ficava muito ligado à questão sacramental: confissão, celebração da missa e crisma. Por isso, Dom Mauro levava alguns padres: Mons. Alves ia muito; Pe. Chagas ia muito. (Pausa) Depois, após uma avaliação, mudou: na Visita Pastoral não se fazia mais Crisma. Então, o bispo tinha todo o tempo de se encontrar com o pessoal das comunidades: vinham os animadores das Comunidades, vinham as pastorais, vinham outros grupos sociais. E, para esses encontros, vinha gente de todas as regiões. A Tereza foi a muitas visitas pastorais, não foi?

Ir. Tereza: Exatamente. E durava vários dias. Era longa a Visita. E havia uma recomendação no sentido de que os crismando fossem preparados antes da Visita. Então, durante a visita, a Crisma acontecia como conseqüência daquela preparação. Onde não houvesse preparação, não havia Crisma. Por esse tempo, o pessoal já estava se educando no sentido de se reunir: casais, jovens, crianças e adultos. Para cada grupo, tinham aquelas pessoas encarregadas. Por isso, Dom Mauro se fazia acompanhar também das religiosas, que ajudavam nas reuniões, que faziam os ensaios, que cuidavam, enfim, de oferecer esta assessoria.

Osmar Filho: Quais as maiores dificuldades (uma entre tantas) do começo de trabalho: a Diocese nascendo, começando a dar os primeiros passos… Havia resistência ao novo?

Pe. Queiroga: Umas das dificuldades era essa passagem do individualismo para o comunitário. O pessoal vinha de uma Igreja “anterior” ao Concílio, quando o atendimento era, assim, individual, não é? Então, daí, para passar desse lado, para o “novo”, havia uma certa resistência. Uma “tensão”… nas reuniões, mesmo nas assembleias, e até mesmo numa reunião só entre nós, padres.  Uma tensão forte era…  sacramentalismo e evangelização. O forte era o sacramentalismo; E, agora, a gente dava um passo para investir mais na evangelização. E a celebração dos SACRAMENTOS seria resultado, um pouco, da evangelização. Celebrar para um pessoal evangelizado. Então tinha que se dar muito tempo para a evangelização. E isso dava uma tensão muito grande, porque uma grande parte dos padres, como também dos católicos, vinha naquele ritmo (antes do Concílio) e, para mudar, não foi fácil. Deu muito trabalho. Deu muita discussão. Muita gente achava que estavam acabando a Igreja. Nessa fase inicial, investiu-se muito na preparação da comunidade. Preparação para os sacramentos. Outra tensão foi a questão da massa, e grupo, comunidade. Por isso, houve bastante tempo que não aconteciam as missões, porque agora se privilegiava a questão das comunidades, os pequenos grupos, era a área onde tinha que se investir.

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