EMPENHO QUARESMAL

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Entramos na Quaresma de nossa preparação para a Páscoa com o convite de Deus: “voltai para mim com todo o vosso coração” (Jl 2, 12). Significa voltar-se para Ele. Converter-se ao Amor. Ter a coragem de querer mudar. Ter a ousadia de enfrentar a mudança, isto é, as consequências práticas do amor de Deus.

O Profeta insiste: “rasgai o coração” (Jl 2,13). Este outro apelo ao coração estimula o compromisso da liberdade para ativar a vontade de amar. Significa ser possível até sofrer e sangrar para converter-se ao amor de Deus.

Tais palavras proféticas favorecem a Campanha da Fraternidade ligada à vida, como dom a exigir-nos compromisso. Rasgando o coração, à semelhança de Santa Dulce dos Pobres, com o auxílio da graça, podemos realizar o que Jesus nos ensina: um amor samaritano, solidário, gratuito: “viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34).

Nossa Quaresma se abriu com o rito das cinzas sobre nossas cabeças, símbolo da humilhação do pecador que se deixa corrigir por Deus Pai. Expõem-nos tais cinzas à nossa fragilidade moral, à nossa condição de precariedade, à impureza do coração.

Entende-se por que somos confrontados com as tentações de Cristo que sai vitorioso das investidas do diabo (Mt 4, 1-11). Em Cristo, com Ele e por Ele, somos capacitados ao combate constante. Jesus não nos chama ao paraíso do conforto. Ao contrário, Ele nos chama à aridez do deserto, mas em sua companhia. Com Ele, o deserto é fértil.

Não estamos sozinhos ou abandonados diante das seduções do diabo, das modas ou de um destino fatal. Não lutamos sozinhos no mundo, carregado de inúmeras injustiças e de cruéis violências. Não estamos fadados à derrota ou ao fracasso diante do mal e do poder da morte. Temos o bom Jesus conosco. Ele é nosso modelo de vida e de militância. Ele vence com a verdade, a coerência, o amor e a centralidade em Deus.

 “Conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado” (v. 1), Jesus enfrenta o diabo.  Não há diálogo, mas confronto. Portanto, as tentações têm um significado para o Senhor. Muitos até afirmam que se trata de tentações messiânicas, ou seja, dizem respeito a sua missão e obra. Neste sentido, ser tentado significa ser provado.

As tentações ou provações do Senhor, no entanto, têm um sentido também para nós. A liturgia quaresmal reconhece que “Cristo por nós foi tentado, sofreu e na cruz morreu” (cf. Invitatório). Por nós, rejeitou um messianismo do poder e do domínio dos povos, da glória e do triunfo mundanos. Jesus assumiu o messianismo do Justo Sofredor (Is 53).

Por nós, rejeitou a interpretação bíblica, diabolicamente falseada, pelo uso (ou abuso) do maravilhoso (=milagre) só para interesse próprio ou de manipulação do sagrado. Assim sendo, ensinou-nos a discernir a utilização de textos da Escritura contra a autêntica interpretação da Palavra, no Espírito Santo. Enquanto o diabo visava à letra que mata, Jesus visava tão somente ao Espírito que dá a vida (cf. 2 Cor 3, 5).

Jesus ensinou-nos, ao destacar a Palavra vivificante, como se vencem as manipulações do sagrado, feitas pelos falsos profetas que sempre surgem. Jesus sinaliza também para os textos norteadores da Palavra, sem fragmentá-la, do Deus que não se põe à prova, da adoração somente prestada a Ele e de nunca idolatrar o poder, o prazer e o ter.

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